O FUTURO DO MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA EXIGE PONDERAÇÃO E RESPEITO


Com a publicação da saudação do Dr. Luís Raposo aos Amigos do MNA, do artigo do jornal Publico e da notícia da Antena 1, todos abaixo transcritos, chega ao fim a missão deste blogue independente,
feito por alguns amigos do MNA.

A luta travada nos últimos anos em defesa do MNA, impedindo a sua transferência para a Fábrica da Cordoaria Nacional, foi coroada de êxito.

Ao Dr. Luís Raposo desejamos as maiores venturas na continuação da sua carreira profissional.

Se um dia o MNA voltar a estar em perigo, regressaremos,

porque por agora apenas hibernamos.



segunda-feira, 31 de maio de 2010

domingo, 30 de maio de 2010

Resolução da Assembleia da República recomenda ao Governo suspensão de projectos para museus no eixo Ajuda-Belém

ASSEMBLEIA DA REPUBLICA APROVOU RESOLUÇÃO PARA SUSPENSÃO DO PROCESSO DE TRANSFERÊNCIA DO MNA

A Assembleia da República aprovou na passada 6ª Feira, dia 28 de Maio, com a unanimidade de todos os partidos da oposição (PSD, BE, CDS, PCP, Verdes) o Projecto de Resolução n.º 110/XI, que recomenda ao governo a suspensão imediata de todas as acções relativas à transferência de museus no eixo Ajuda-Belém, pelo menos até à elaboração de um plano estratégico para a reconfiguração do seu conjunto.
Nesta Resolução é referido explicitamente o caso da transferência do MNA, que deve ser suspensa.
Trata-se de uma vitória para o Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia (GAMNA).
Mas é sobretudo uma vitória do funcionamento das instituições democráticas e da própria Democracia, que com esta Resolução se dignifica, ao defender ao mais alto nível e de forma clara a segurança do património nacional colocado em causa com a decisão do Ministério da Cultura de transferir o Museu Nacional de Arqueologia (MNA) dos Jerónimos para o edifício da Cordoaria Nacional.
Resta agora saber o que acontecerá à Torre Oca, entretanto deixada livre pelo MNA.
Na ocasião foi também aprovada outra Resolução (nº 128/XI) versando especificamente a suspensão da construção do novo Museu Nacional dos Coches.
O Projecto de Resolução nº 110/XI pode ser consultado no sítio Internet da Assembleia da República, em:
http://app.parlamento.pt/DARPages/DAR_FS.aspx?Tipo=DAR+II+s%c3%a9rie+A&tp=A&Numero=67&Legislatura=XI&SessaoLegislativa=1&Data=2010-04-17&Paginas=6-7&PagIni=0&PagFim=0&Observacoes=&Suplemento=.&PagActual=0
As Resoluções parlamentares constituem recomendações políticas dadas ao Governo. Embora juridicamente o Governo possa não as adoptar, tal configuraria um desrespeito pouco consentâneo com a natureza do nosso Regime Democrático, tanto mais que estas medidas não constam das promessas do actual do Governo.
O facto de ter havido um tão amplo consenso partidário, reforça em muito, aliás, esta Resolução.
O GAMNA espera que o Ministério da Cultura abandone agora definitivamente a intenção de transferência do MNA e providencie a reintegração da torre oca no mais curto prazo, sem o que se manterão todos os procedimentos de resistência cívica e contestação em curso, inclusive os de natureza judicial.

Gravação da votação da Resolução no plenário da Assembleia da República

Amigos de Arqueologia questionam IMC

Público, 28 de Maio de 2010

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Nota de Imprensa do GAMNA, em 25 de Maio de 2010: PEDIDOS ESCLARECIMENTOS AO DIRECTOR DO IMC A PROPÓSITO DAS SUAS DECLARAÇÕES AO JORNAL PÚBLICO

Na sequência das declarações prestadas pelo Prof. Doutor João Brigola, director do Instituto dos Museus e Conservação (IMC), ao jornal Público de 14 de Maio último último, nas quais parecia admitir a possibilidade de o MNA não vir a ser transferido para a Fábrica da Cordoaria Nacional (FCN), em caso de falta de condições de segurança, indo para o efeito ser constituída um grupo de trabalho técnico (ver post abaixo, dessa data, intitulado “Mais uma originalidade portuguesa: decidir primeiro, estudar depois...”), a Presidente do Conselho Director do GAMNA, Doutora Jeannette Nolen, dirigiu àquele responsável uma carta formal na qual requer esclarecimentos adicionais sobre o seu conteúdo.
Em concreto, pergunta-se
1. Por que razão não foram efectuados os estudos técnicos necessários à aferição da segurança geológica-geotécnica do edifício da Fábrica da Cordoaria Nacional (FCN) em momento anterior à “decisão” de transferência do MNA para o mesmo e consequente decisão de desocupação, por este, da Torre Oca?
2. A execução da decisão de transferência do MNA para o edifício da FCN está efectivamente dependente da realização, nomeadamente, de estudos geológico-geotécnicos?
3. Para quando se prevê a constituição do acima referido “grupo de trabalhos”?
4. Caso dos estudos a desenvolver resulte a confirmação da insegurança geolócica-geotécnica do edifício da FCN, que destino será dado ao MNA, tendo naturalmente em consideração a pretensão da Ministra da Cultura relativamente à instalação do – por esta tão almejado – Museu da Viagem (ou dos Descobrimentos)?
4.1. Admite-se a permanência do MNA no Mosteiros dos Jerónimos, onde foi definitivamente instalado em 22 de Abril de 1903?
4.2. E, caso seja positiva a resposta dada à questão colocada no ponto anterior, será restituída a Torre Oca ao MNA?
5. Caso dos estudos a desenvolver resulte a confirmação da segurança geolócica-geotécnica do edifício da FCN, quais os custos inerentes aos trabalhos de engenharia de reforço estrutural do mesmo e de reconfiguração dos sistemas de escoamento de águas envolventes?
6. Tem o Estado Português capacidade económico-financeira para suportar, designadamente, os custos referidos no ponto anterior? Em caso afirmativo, qual a exacta origem e discriminação quantitativa dos fundos a mobilizar?
A Presidente do GAMNA solicitou que as respostas pedidas sejam dada em tempo necessariamente breve, tendo para o efeito sido marcada o prazo de 10 dias. Até lá, foi pelos respectivos promotores dada indicação aos advogados para que suspendam as iniciativas relacionadas com a acção judicial popular intentada com o objectivo da impugnação do Protocolo de permuta de instalações entre o espaço dos Jerónimos e a FCN, visando a suspensão da transferência do MNA e a reversão à situação anterior à alienação extemporânea da torre oca.
Para o GAMNA, esta suspensão não se trata de um recuo na posição assumida até aqui, mas sim da expressão de uma postura construtiva e de expectativa de que o Estado português, através das suas diferentes instâncias, trate com responsabilidade o património nacional conservado no Museu Nacional de Arqueologia. João Brigola, director do IMC, tem agora a oportunidade de esclarecer o GAMNA e tornar clara e idónea a posição do Ministério da Cultura relativamente à decisão de transferir o Museu Nacional de Arqueologia.

terça-feira, 25 de maio de 2010

As narrativas história e mitológica, com a literatura pelo meio

Em mais uma conversa de fim de tarde, confrontaram-se os olhares do arqueólogo classicista com o do escritor romancista na construção de narrativas sobre o passado, especialmente centradas nas figuras dos heróis.
Amílcar Guerra, arqueólogo, enfatizou o cepticismo criativo que o historiador, maxime o arqueólogo, têm perante os relatos sobrevindos do passado. A figura de Viriato, construída séculos depois de ter existido a partir de narrativas como a de Possidónio, ilustra bem essa ambivalência entre realidade histórica e elucubração mítica. Existiu de facto, mas dele provavelmente quase tudo o que se diz de vida estritamente pessoal é construção efabulada. Não será assim com todos os heróis, especialmente os heróis fundadores ?
Mário de Carvalho, escritor, apresentou uma perspectiva mais porventura mais optimista do conceito de verdade histórica, que distinguiu radicalmente do da trama literária. Mas, ainda aqui, exprimiu profunda preocupação pelo empobrecimento crescente que tem existido no contacto dos mais jovens com as grandes narrativas e pelos grandes autores passado, começando pelo desconhecimento próprio veículo privilegiado da sua expressão no âmbito cultural português, a língua latina.

Aspecto geral da sessão, moedarada por Maria do Sameiro Barroso.

Amílcar Guerra no uso da palavra.

Mário de Carvalho no uso da palavra.

domingo, 23 de maio de 2010

O que realmente foi abandonado por causa da crise: o “conceito” de Museu dos Descobrimentos ou a despesa efectiva da transferência do MNA ?

O jornal Expresso de ontem passa em revista, ministério a ministério, os projectos que vão ser abandonados por causa da crise que, no dizer o primeiro-ministro, mudou a Europa em poucos dias. No caso do Ministério da Cultura inclui-se nessa lista o novo Museu dos Descobrimentos ou da Viagem, tão defendido pela ministra, que antes de ser já não era.

Pergunta-se: que efeito poderá ter abandonar aquilo que em declarações sucessivas do secretário de Estado e do director do IMC era apenas “uma ideia”, “um conceito”, sem real substância ? Se se quer efectivamente reduzir despesas, então o projecto a abandonar será o da transferência do MNA para a Fábrica da Cordoaria Nacional, que tem como rampa de lançamento 15 milhões de euros, devendo ser pelo menos o dobro ou até o triplo ou quádruplo, no caso de ser preciso fazer reforços estruturais do edifício e reorganização do sistema de escoamento de águas da zona envolvente.

Ou será que a lista de projectos a abandonar foi preparada pelo Conselho de Secretários de Estado e passa também por aqui a guerra surda a que vimos assistindo no confronto de comunicados e tomadas de posição entre a ministra da cultura e o secretário de Estado da cultura, a propósito dos projectos que cada um deles quer executar com os salvados do MNA, depois de executado o despejo ?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Elegia do conhecimento e denúncia da ignorância atrevida, feitas por Galopim de Carvalho e Carlos Fiolhais


Na conversa de fim de tarde de hoje, os professores doutores António Galopim de Carvalho e Carlos Fiolhais falaram de ciência, de património e de museus de ciência e história natural.
O primeiro referiu-se à sua longa experiência na defesa do património geológico e paleontológico, de criação de geomonumentos e exomuseus. A situação concreta do Museu de História Natural de Lisboa, integrado agora no conceito algo difuso de “Museus da Politécnica” causou alguma apreensão entre os presentes pelo desconhecimento que se tem dos projectos existentes para aquele local. 
O segundo, referiu-se em especial aos museus de Coimbra e ao projecto actualmente em curso de montagem da segunda fase do museu de ciência, reunindo colecções históricas de diferentes museus da Universidade.
Foi mais uma sessão muito animada em que se contrapôs o gosto pela descoberta, pelo conhecimento e as atitudes de modéstia e espírito democrático que deles resultam, com o cultivo da ignorância, atrevida por natureza. Foram referidos diversos casos deste tipo de comportamento, tendo o caso do MNA e da hipotética transferência para a Cordoaria Nacional sido dado como exemplo. Ambos os oradores manifestaram neste contexto a sua solidariedade para com o GAMNA e o MNA.

Carlos Fiolahis no uso da palavra.
Preside à mesa Maria do Sameiro Barroso, da direcção do GAMNA

António Galopim de Carvalho no uso da palavra.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Afinal sempre há outro… e o Museu de Marinha pode ser extinto !

Aos dias ímpares, o Director do IMC e o SEC dizem que não existe nenhum projecto do Ministério da Cultura para fazer um novo museu no espaço do MNA. Aos dias pares, a Ministra ou fontes por ela dizem o contrário. Até o Museu de Marinha não está livre da extinção. Ou seja, mais um museu tratado desrespeitosamente, através de acordos subterrâneos.
No meio de tudo, o que fica é a confirmação de que o verdadeiro móbil da transferência para a Fábrica da Cordoaria Nacional não está no benefício do MNA, mas na libertação dos espaços nos Jerónimos.
Até quando vão os actuais governantes actuando como se fôssemos uma república de bananas ? Até quando vão os cidadãos admitindo serem menorizados ? Até onde vai a degradação do sistema político ?

A transferência do MNA para a Cordoaria em debate na Antena 1

No âmbito das comemorações do Dia Internacional dos Museus a Antena 1 tomou a iniciativa de promover um debate sobre o tema das transferência do MNA para a Fábrica da Cordoaria Nacional, que teve lugar no próprio Museu durante o programa "Portugal em Directo".
Foram intervenientes o Dr. Luís Raposo, director do MNA, a Profa. Raquel Henriques da Silva, dos corpos gerentes do GAMNA, e o Dr. Cláudío Torres, arqueólogo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Tradição e inovação: um terreno de tensão criativa

Em mais uma conversa de fim de tarde, José Miguel Júdice e Luís Serpa trocaram impressões sobre o tema “Tradição, Inovação e (nova) Economia da Cultura”.  Tratou-se de uma sessão notável em que se contrapuseram dois olhares diferenciado e por isso muito estimulantes do debate.
José Miguel Júdice, jurista eminente e promotor de várias intervenções de valorização e refuncionalização em bens patrimoniais, referiu-se ao que chamou as “quatro placas tectónicas” do património: o respeito pela tradição ou autenticidade, a importância da captação de públicos, a adaptação a novos usos e o processo criativo inerente às transformações consideradas necessárias. Trata-se de dimensões que se encontram em tensão permanente e passam por diferentes estratégias de intervenção: reabilitação, reconstrução, restauro, reabilitação. José Miguel Júdice referiu-see em especial, dando exemplos bons e exemplos maus, ao que considerou serem “traumatismos” e “dissonâncias” com as envolvências dos lugares. No conjunto defendeu uma postura de contenção, de modéstia até, sempre que se trate de valores patrimoniais – o que de modo nenhum é incompatível com a modernidade.
Luís Serpa, curador e gestor de projectos culturais, apresentou perspectiva diversa, que pretendeu constituir uma intencional divergência de pontos de vista. Defendeu sobremaneira o pulsar criativo de todos os intervenientes no processo de fruição patrimonial, com especial relevo para o papel do arquitecto e da arquitectura. A existência de tensões constitui condição do progresso e considerou que se deve caminhar de uma concepção hierárquica, piramidal de intervenção, onde as construções abstractas de política e de gosto (ou de ambos) ditam as normas, para uma nova articulação mais horizontal entre todas as disciplinas, numa óptica vincadamente criativa.
A questão dos museus de Belém foi referida por ambos os intervenientes e por alguns dos presentes durante o debate que se seguiu. José Miguel Júdice teve ocasião de explicar as circunstâncias concretas em que interveio no processo do novo Museu dos Coches – um tema em que as posições divergentes acabaram afinal por conduzir à sua maior aproximação ao mundo dos museus e dos seus profissionais. Quanto à Cordoaria Nacional, foi salientada a sua natureza própria e o provável mau uso patrimonial que constituirá a instalação do MNA no local.

Mesa da sessão, moderada por Pedro Roseta.

José Miguel Júdice no uso da palavra.

Luís Serpa no uso da palavra.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Tempo longo, tempo curto… a arte como ferramenta humana de domínio do tempo

Em mais um conversa de fim de tarde, Diogo Pires Aurélio, professor universitário, especialista na área da comunicação e actualmente assessor do Senhor Presidente da República, referiu-se às múltiplas dimensões sociais do tempo longo, com especial relevo para o domínio dos bens materiais, das obras de arte, guardadas em museus. Na sua óptica, a arte constitui a mais universal forma de domínio do tempo e porventura a primeira em que o homem se assume como agente desse acto, retirando-o do domínio até aí exclusivamente reservado aos mitos e às religiões.
José Carlos Vasconcelos, jornalista, jurista, escritor e poeta, director do “Jornal de Letras”, desenvolveu o tema das durações na criação literária. A ideia de que a beleza pode constituir um elo, porventura “o” elo de ligação do efémero ao eterno encontra-se especialmente na poesia: "a beleza do efémero e a efemeridade da beleza", no dizer de Eugénio de Andrade, que foi várias vezes citado.

A sessão foi moderada pela Arqta. Helena Delgado, secretária-geral do GAMNA

Diogo Pires Aurélio no uso da palavra.

José Carlos Vasconcelos no uso da palavra.


domingo, 9 de maio de 2010

Nova atitude, a mesma opinião...

O Diário de Notícias de hoje dá conta da jornada de solidariedade do GAMNA de ontem. Com excepção do título e subtítulo, que são abusivamente simplificadores (título) e até errados (subtítulo), o texto em si espelha bem a situação em que estamos.

A Jornada de Solidariedade - Vigília pela Memória de 8 de Maio de 2010 foi um assinalável êxito… e fará história (6)

Uma poesia de Maria do Sameiro Barroso...

POEMA EM DEFESA DO MNA
(OU, PORQUE A ARTE SE DEFENDE COM ARTE)

O MNA é a casa-pátria, alberga tesouros
infindos, jóias de milenar história.
Muitos séculos antes dos Descobrimentos,
chegava já à grande Roma,
pela chama da cítara e do gládio,
o azul fragrante e leve
do rumoroso sol da sua glória.

Maria do Sameiro Barroso


A Jornada de Solidariedade - Vigília pela Memória de 8 de Maio de 2010 foi um assinalável êxito… e fará história (5)

Um depoimento da jornalista NAIR ALEXANDRA.

PAREDES VAZIAS


Vi hoje e não quis acreditar. A chamada «Torre Oca» do Museu Nacional de Arqueologia (MNA) está vazia. Paredes nuas, apenas em baixo, painéis pretos, com palavras de ordem a lembrarem a coisa mais lógica e básica de qualquer sociedade civilizada, mas que os responsáveis deste País parecem não entender: o património é um bem de todos, faz parte da memória colectiva de um país. E o MNA não é um sítio qualquer. É uma instituição centenária, fundada por alguém que quis fazer dele uma espécie de «Museu do Homem», alguém como Leite de Vasconcelos, a quem a arqueologia portuguesa tanto deve, a quem a cultura portuguesa tanto deve. O Museu é «só» a «Casa da Arqueologia» em Portugal, com um espólio riquíssimo, que guarda a passagem humana de tantos que viveram no território que é hoje português (e não só) e que continuam a viver em nós através de lucernas, ampolas de vidro, colares, estátuas, mosaicos e outras peças que as mãos desses homens e mulheres produziram. O Museu guarda múmias egípcias, escaravelhos da velha civilização do Nilo, estátuas romanas, peças incontáveis, de um valor dificilmente calculável, adquiridas pelo próprio Leite de Vasconcelos e pelos seus sucessores ao longo da sua história já tão cheia.
E no entanto, quando se resolveu fazer um novo museu de raiz para os coches, ali ao pé, de uma penada decidiu-se que a «arqueologia» - dito assim, de uma maneira vaga – iria ocupar o espaço da Cordoaria Nacional. E por «arqueologia» iria de arrasto o MNA, como se este fosse uma qualquer secção onde se engavetam fragmentos empoeirados de uma escavação arqueológica. E a decisão manteve pé firme, contra relatórios que desaconselham a transferência do Museu para uma unidade fabril setecentista única na Europa, mas entretanto com fragilidades porque sob as suas paredes passa o Tejo, porque os solos ali são particularmente sensíveis a tremores de terra… E muito provavelmente (embora o ministério da Cultura não tenha, até agora, apresentado contas) porque a transferência do MNA para a Cordoaria poderá custar muito mais do que um museu de raiz. E entendamo-nos aqui. Ninguém está «amarrado» à ideia da localização eterna do MNA na área reconstruída do século XIX que ele ocupa. Simplesmente quando se decide transferir um museu é do mais elementar bom senso fazer estudos, contas, cálculos, ouvir pareceres, decidir tomando em atenção as opiniões de quem sabe, perante os dados na mesa.
Mas não. O bom senso não interessa o que quer que seja para aqui. E como a falta dele, e, pelos vistos, a ignorância, costumam andar de mãos dadas com a arrogância, vá de esvaziar um dos espaços expositivos mais importantes do Museu sem demoras. Já e agora, que o ministério da Cultura tem pressa. Sem consideração pela instituição e por quem ali trabalha. E que merecia mais respeito. A própria memória de Leite de Vasconcelos merecia mais respeito.
Eu sabia o que andava a passar-se. Tenho acompanhado o que muito nesta casa se tem feito, às vezes lutando contra ventos e marés, contra as dificuldades que minam a vida dos museus portugueses. Mas quando hoje, dia que o Grupo de Amigos do MNA marcou para uma jornada de defesa do Museu, eu entrei na Torre Oca, não queria acreditar. Durante anos vi ali mosaicos bizantinos, vitrinas exibindo peças maravilhosas, de países diferentes, maquetas de embarcações egípcias, máscaras romanas, marfins delicadamente trabalhados, projecções de filmes como «Ben-Hur», a mostrarem certos olhares contemporâneos sobre o passado.
Hoje as paredes daquela sala estavam nuas. E eu continuo a não querer acreditar. Porque tanta falta de cuidado parece irreal. Parece impossível.
Nair Alexandra

A Jornada de Solidariedade - Vigília pela Memória de 8 de Maio de 2010 foi um assinalável êxito… e fará história (4)

O Actor Victor Norte lê a carta de 1953 do Prof. Doutor João Pereira Dias, Director da Faculdade de Ciências de Coimbra e Presidente da Comissão das Novas Instalações do MNA, dirigida ao Prof. Manuel Heleno.

A Jornada de Solidariedade - Vigília pela Memória de 8 de Maio de 2010 foi um assinalável êxito… e fará história (3)

Tiago Flores (Corvos) e Março Miranda (Double MP).

Coro Sinfónico Lisboa Cantat,
sob a direcção do maestro Jorge Alves.

Teatromosca, Retratinho de Gil Vicente.

A Jornada de Solidariedade - Vigília pela Memória de 8 de Maio de 2010 foi um assinalável êxito… e fará história (2)

Actuação da INOPORTUNA - Tuna Masculina da Faculdade de Letras de Lisboa.


Rão Kyao

Teatro dos Aloés - Os Guardas do Museu de Bagdad.

A Jornada de Solidariedade - Vigília pela Memória de 8 de Maio de 2010 foi um assinalável êxito… e fará história

Decorreu ontem a Jornada de Solidariedade – Vigília pela Memória em Defesa do Museu Nacional de Arqueologia. Não obstante o tempo invernoso que se fez sentir e obrigou a anular a maior parte do programa no exterior, transferindo-o para o interior do MNA, esta iniciativa constituiu um enorme êxito, tendo contado com a participação de várias centenas de cidadãos. Estiveram presentes largas dezenas de amigos do Museu, assim como museólogos, arqueólogos, artistas, escritores, deputados… enfim, mulheres e homens de cultura para quem o destino de um Museu Nacional constitui matéria de afirmação de cidadania.
O programa previsto foi integralmente cumprido, centrado na torre oca. Este espaço, agora com o carácter espectral que dão as paredes e caixas de vitrinas vazias a aguardar serem desmanteladas, foi objecto de uma intervenção de afirmação das preocupações do momento, por parte de um colectivo de artistas plásticos membros do GAMNA.
Todos os intervenientes tiveram palavras de solidariedade para com o MNA. O actor Vítor Norte leu uma carta dirigida ao Director do MNA pelo presidente da comissão encarregada da transferência do MNA para a Cordoaria Nacional, na qual se dizia que a dita transferência nunca seria feita apressadamente e que o melhor era continuar a investir no melhoramente do Museu nos Jerónimos. Todos se poderiam ter convencido de que se tratava de uma carta escrita e recebida por estes dias… até ao momento em que Vítor Norte leu o nome do remetente, o nome do destinatário e a data. Afinal, tratava-se de uma carta escrita em 1953 pelo Presidente da comissão encarregada de executar a transferência do MNA para a Cordoaria Nacional e dirigida ao Prof. Manuel Heleno, director do MNA à época.
Costuma dizer-se que a história quando se repete é sob a forma de tragédia. Mas a Jornada de 8 de Maio de 2010 reforçou em todos a convicção que assim não será e que a despedida da torre oca ontem simbolicamente efectuadas não será um adeus, mas um até logo.
As frentes de luta que subsistem, no plano político (Assembleia da república), no plano consultivo (Conselho Nacional de Cultura) e no plano judicial (acção popular do GAMNA contra o Ministério da Cultura) garantem que assim será. Os muitos amigos que ontem passaram pelo Museu e os numerosos artistas e intelectuais que intervieram confirmam-no plenamente.
O “caso” da transferência do MNA para a Cordoaria Nacional não está encerrado. Nem sequer ainda vai a meio e convém que não se iluda quem desde há mais de um ano o anda a considerar encerrado sempre que fala.

Associação de Gaiteiros - animação de exterior

Distribuição de panfletos no exterior.

Intervenção de abertura do Vice-Presidente do GAMNA, Prof. Doutor Luís Manuel Araújo

sexta-feira, 7 de maio de 2010

8 de Maio: JORNADA EM DEFESA DO MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA. Divulgue, participe e traga os amigos

Qualificação científica, ética profissional e políticas que prossigam o interesse público – o triângulo em que assenta a defesa do património cultural

Em mais uma “conversa de fim de tarde", falou-se hoje da patrimonialização em arte e arquitectura. Foram intervenientes os professor doutor Vítor Serrão e o professor arquitecto José Aguiar, tendo sido moderador o vice-presidente do GAMNA, o professor doutor Luís Manuel Araújo.
Vítor Serrão referiu-se à dimensão trans-contextual e trans-disciplinar do património artístico e cultural em sentido lato. Repudiou em especial a oposição entre “património morto” e “património vivo” – defendendo a tese de que todo o património é património do presente, na medida em que está permanentemente a ser reinterpretado e reapropriado.
José Aguiar referiu-se à evolução das ideias sobre os conceitos de restauro e reconstrução dos monumentos, das cidades e das paisagens, tendo dado abundantes exemplos de situações de descaracterização ou até de destruição de bens patrimoniais sob os pretextos os mais variados, alguns supostamente modernos e ditados por teorias vanguardistas desrespeitadoras do valor que mais deveria orientar a intervenção em património: o menos é o mais, ou seja, intervir o menos possível.
No período de debate emergiram dois tópicos que concitaram o consenso dos presentes: a importância do inventário, como base indispensável para qualquer política de património; a extrema preocupação com que se devem encarar intervenções pesadas em meio urbano histórico estabilizado, quando se pretendem fazer pseudo-recuperações que mais não são do que operações desalojameto dos moradores, em nome de projectos de especulação imobiliária. Neste contexto foi dado o exemplo em curso em Évora, que poderá vir a justificar uma ampla mobilização social.
Ambos os oradores manifestaram ainda a sua solidariedade com a luta actualmente travada pelo GAMNA em defesa do MNA.


Aspecto geral da sessão

A mesa: José Aguiar, Luís Manuel Araújo, Vítor Serrão.

MNA e Cordoaria: a opinião do Doutor Joaquim Caetano

Mais um testemunho muito qualificado, neste caso do Doutor Joaquim Caetano, conservador de museu e até há pouco Director do Museu de Évora.
Uma opinião totalmente partilhada pelo GAMNA.

Da revista L+ARTE, Maio de 2010, com a devida vénia.

Amigos do MNA avançam com acção popular contra mudança

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Acção Popular: Entrevista do advogado Mário Moreira Félix à TVI24

Última Hora: O GAMNA apoia acção popular contra a transferência do MNA para a Fábrica da Cordoaria Nacional

Transferência da Arqueologia para a Cordoaria provoca acção popular
06.05.2010 - 13:48 Por Lusa

O Grupo de Amigos do Museu de Arqueologia (GAMNA) vai apoiar uma acção popular a apresentar em tribunal por um grupo de cidadãos para invalidar a transferência do Museu para a Cordoaria Nacional.
O Museu Nacional de Arqueologia, instalado numa das alas do Mosteiro dos Jerónimos, alberga 600 tesouros nacionais.
O anúncio foi feito hoje em conferência de imprensa pelo advogado Mário Nogueira Félix, que referiu que este é "um direito que a Constituição permite", e que a acção se baseia nos necessários requisitos de segurança.
O Museu Nacional de Arqueologia, instalado numa das alas do Mosteiro dos Jerónimos, alberga 600 tesouros nacionais e deixará de contar, a partir de sexta-feira, com o espaço da Torre Oca.
O GAMNA anunciou também que o director do museu, Luís Raposo, irá entregar o espaço da Torre Oca ao abrigo do protocolo assinado a 27 de Março do ano passado pelos ministérios da Defesa, Finanças e Cultura.
A Torre Oca é um espaço central de circulação do actual museu, onde se realizaram várias exposições, e resulta do desmoronamento do seu interior em 1878.
O GAMNA alertou para "a estranheza" que é o facto de a Torre ser ocupada por outro museu, dentro das instalações actuais do Museu de Arqueologia.
Na conferência de imprensa estiveram presentes a museóloga Raquel Henriques da Silva, o jurista Pedro Roseta, e a poetisa Maria do Sameiro Barroso, do GMNA.

Comentário
A partir de agora todo o negócio de transferência está posto em causa até haver decisão do tribunal. O protocolo foi impugnado e com ele foi também impugnado o primeiro passo para o concretizar, ou seja, a entrega da torre oca à Marinha. Bem podem os (ir)responsáveis do Ministério da Cultura assinar os papeis que quiserem, porque o tudo o que fizerem será reversível pela acção da justiça.

Carta Aberta à Ministra da Cultura

Exma. Senhora Ministra da Cultura
Dra. Gabriela Canavilhas

Tendo vindo recentemente a público a intenção de V.Exa. em dar início aos procedimentos conducentes ao desenvolvimento de um projecto museológico de raiz, denominado “Museu da Viagem”, e, de igual modo, ao desejo em reinstalar o Museu da Música em local que não numa estação de metropolitano, vimos pelo presente regozijar-nos com ambos os desideratos, e apresentar duas propostas relativamente aos mesmos:

1. Museu da Música
Desde há anos que temos vindo a alertar quem de direito para a necessidade de haver um projecto de reabilitação para o antigo, emparedado e esquecido Teatro Tália, sito junto ao Jardim Zoológico (http://cidadanialx.tripod.com/talia.html).
O Teatro Tália é Imóvel de Interesse Público desde 1974, pertence ao Estado (Presidência do Conselho de Ministros) e está afecto ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) desde há mais de uma década.
Ao que sabemos, o único “projecto” apresentado oportunamente pelo MCTES ao MC, o de instalação naquele espaço do arquivo morto daquele ministério, foi liminarmente recusado, e bem. Como tal, qualquer projecto que se pretenda desenvolver para o Teatro Tália terá que ser compatível com o seu valor histórico e simbólico, e com a sua envolvente.
Julgamos que a instalação do Museu da Música no Teatro Tália (ainda que a solução ideal fosse obviamente a desocupação do Palácio do Conde de Farrobo pelo MCTES e a instalação do museu nesse palácio, complementada pela reabilitação do Tália enquanto anfiteatro) será uma excelente solução para a colecção do actual museu, para o antigo teatro e para a cidade, e que além de não implicar verbas tão avultadas quanto a construção de raiz de um novo edifício, terá a vantagem de recuperar um belo e valioso património.
Por isso, apelamos a V.Exa. para que equacione a possibilidade de negociar a cedência daquele conjunto com o MCTES para que ali possa ser instalado o acervo museológico hoje exposto na Estação de Metro do Alto dos Moinhos, e demais instrumentos ainda existentes em armazém, por via de projecto adequado de recuperação do antigo Teatro Tália.

2. Museu da Viagem
A ideia da criação de um Museu da Viagem dedicado não só às Descobertas como à diáspora lusitana, tendo por base uma viagem “virtual” à semelhança do que era exposto no Pavilhão de Portugal aquando da Expo’98, parece-nos boa e oportuna, uma vez que se trata de uma temática que, sendo transversal a muitas áreas da nossa museologia, é quase sempre entendida como subliminar, quando não incapaz de per si ser objecto de um projecto de museu nacional.
Assim, como contributo para o enriquecimento do debate sobre o futuro do edifício da Cordoaria Nacional (e do Museu Nacional de Arqueologia), e uma vez que o não desvirtuamento físico da Cordoaria Nacional enquanto Monumento Nacional tem sido também uma das nossas causas desde há anos, somos a propor que o “Museu da Viagem” seja desenvolvido na Cordoaria e não em edifício a construir de raiz. Isto porque:
- Apesar de quase devoluta e subaproveitada enquanto espaço museológico de índole industrial, a Cordoaria merece ser respeitada e objecto de um projecto de arquitectura que lhe devolva dignidade e possibilite a sua visita de forma cabal e integrada;
- Um programa arquitectónico de um "museu da viagem" será menos intrusivo do que o de um museu de arqueologia;
- O facto da Cordoaria estar sobre leito de cheia (Rio Seco) será menos gravoso no caso de um museu assente num programa virtual, do que num museu com tesouros arqueológicos físicos de valor incalculável;
- Finalmente, porque a existir um edifício cuja história se confunde com as Descobertas e com as viagens ele é a Cordoaria Nacional, pelo simples facto de que era ali que se fabricavam os cordames para os barcos.
Na expectativa de que estas propostas sejam bem aceites por V.Exa., subscrevemo-nos com elevada estima e consideração.

Paulo Ferrero, Bernardo Ferreira de Carvalho, Luís Marques da Silva, Jorge Santos Silva, João Chambers, José Arnaud, Diogo Moura, Cátia Mourão, Luís Serpa, Pedro Formozinho Sanchez, Virgílio Marques, António Branco Almeida, Jorge Pinto, João Leonardo, Beatriz Empis, Carlos Moura, Maria Helena Barreiros, Luís Rêgo e Carlos Matos

Da plataforma CIDADANIA LISBOA.
http://cidadanialx.blogspot.com/2010/05/museu-da-musica-e-museu-da.html

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O GAMNA, a Cordoaria e a Torre Oca – um esclarecimento

Em 8 de Abril passado, o Director do MNA declarava ao Diário de Notícias que a sua vontade de diálogo e compromisso era tal que se o Ministério da Cultura indicasse que estava disposto a mandar realizar estudos geotécnicos sobre a Cordoaria, certificados por entidade idónea, ele poderia “abrir mão” da torre oca.
Aparentemente, esta disposição dialogante não encontrou eco, porque na audição parlamentar de 14 de Abril, o secretário de Estado da Cultura afirmava que já possuía todos os dados necessários à tomada da decisão política.
Afinal, parece que a posição dos titulares governamentais parece ter mudado… admitem agora, segundo notícia do jornal Público de 4 de Maio, que constituirão uma comissão que ficará encarregada de fazer os tais estudos geotécnicos. Terá sido essa a razão que levou o director do MNA a cumprir o que dissera quanto à sua maior maleabilidade quanto à torre oca.
Mas a questão de fundo mantém-se e o GAMNA não abdica dela: não pode haver decisão política de transferência do MNA para a Fábrica da Cordoaria Nacional sem previamente estarem feitos e validados os estudos geotécnicos que garantam a segurança do acervo. E já agora que indiquem os custos envolvidos.
Ou será que em Portugal os governantes decidem primeiro e mandam fazer os estudos depois ?

Director de Arqueologia e tutela querem evitar ruptura

terça-feira, 4 de maio de 2010

O museu pode ser uma âncora na cidade

Hoje o tema das conversas de fim de tarde foi “Os museus e os monumentos na construção da cidade”, com a presença de dois eminentes arquitectos com reflexão e obra feita na área do património e do planeamento urbano, e a moderação do presidente da mesa da AG do GAMNA, Pedro Roseta.
O arquitecto Alexandre Alves Costa apresentou uma verdadeira comunicação conceptualmente muito rica e cheia de ideias saudavelmente provocatórias. Referiu-se expressamente a problemática do MNA e da Cordoaria, considerando que o Museu deve fica ronde está e a Cordoaria Nacional deve ter usos mais compatíveis com a sua própria natureza histórica.
O Arquitecto José Manuel Fernandes falou da necessidade de uma relação criativa entre arquitecto e museólogo, dando diversos exemplos portugueses e estrangeiros de como a boa arquitectura trouxe mais valias aos museus, inclusive à forma de apresentação das colecções.
Durante o debate ficou clara uma ideia que fez consenso entre os presentes: os museus podem e devem ser entendidos como pólos de desenvolvimento da cidade e da cidadania, mas requer-se a existência de planeamento e a participação democrática na sua definição.


Aspecto geral da mesa


O Arqto. Alexandre Alves Costa no uso da palavra.


O Arqto. José Manuel Fernandes no uso da palavra.

Museu de Arqueologia - «Passagem para a Cordoaria Nacional é um erro»

O director do Museu Nacional de Arqueologia fala dos problemas inerentes à passagem do património do espaço que dirige para a Cordoaria Nacional. Entre eles, Luís Raposo salienta os riscos de segurança geotécnica e antecipa os milhões que esta operação pode custar aos cofres do Estado.

Ana Clara
terça-feira, 4 de Maio de 2010

Há um ano, o anterior Governo de José Sócrates colocou a hipótese de transferir o Museu Nacional de Arqueologia (MNA) do Mosteiro dos Jerónimos para a Cordoaria Nacional. A intenção governamental, desde logo, suscitou grande polémica, com críticas sobretudo à segurança geotécnica do local e do próprio edificado da Cordoaria.
O Café Portugal foi perceber onde e porquê reside esta controvérsia, sobretudo por parte da Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional dos Museus que, em defesa do Museu, tem em marcha um abaixo-assinado contra a eventual mudança de local do espaço. 
Luís Raposo, presidente do MNA e do ICOM- Portugal, a maior organização internacional de museus e profissionais de museus dedicada à preservação e divulgação do património natural e cultural mundial, explica o que está em causa.
«São basicamente duas as preocupações que tenho quanto a esta matéria. Primeiro, garantir que na Cordoaria Nacional existem condições para acolher o Museu. Segundo, garantir que o Museu mantenha totalmente a sua operacionalidade nos Jerónimos, até ao momento em que possa passar, em boa ordem, para a Cordoaria Nacional», começa por explicar.
Refere que a Cordoaria Nacional apresenta riscos de segurança geotécnica que «não são negligenciáveis». E argumenta: «de um lado da Cordoaria está o novo Museu dos Coches e do outro está o novo hotel a construir nos terrenos da ex-FIL. Em ambos os casos foi decido não colocar nada de importante abaixo da quota de cinco metros acima do rio Tejo. Porquê? Porque é essa a quota de segurança de inundações e tsunami. Como e que se pode dizer que no meio, na Cordoaria Nacional, os tesouros nacionais do Museu estarão bem apenas um metro acima do Tejo?».
Luís Raposo afirma que a isto acrescem os riscos sísmicos: «é que a Cordoaria está sobre o estuário do rio Seco e tal como no Terreiro do Paço existe o perigo de os sedimentos por baixo poderem escorregar e não suportar cargas em caso de sismo, afundando-se o que estiver por cima». «Ainda existem mais perigos, mas só estes já chegavam para que tudo tivesse de ser analisado com grande seriedade», alerta.

Parecer do LNEC pedido pelo MC
Questionado sobre o parecer pedido pela nova ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) acerca das referidas condições geotécnicas, o presidente do MNA diz: «falamos de um parecer dado num mês por um antigo funcionário do LNEC, certamente competente mas que não pôde senão basear-se em estudos generalistas sobre a geologia de Lisboa».
E acrescenta que «o único estudo específico sobre o rio Seco usado nesse parecer conclui também pelo perigo de inundação e recomenda a adopção de medidas de desvio do caudal do rio Seco e de impedimento de entrada das águas do Tejo, medidas que nunca foram implementadas». «Até mesmo usando o parecer pedido pelo Ministério da Cultura (MC) teria de concluir-se que o Museu não pode passar para a Cordoaria sem que estas medidas estejam efectivadas», reforça.
Luís Raposo lembra que a ideia de transferir o Museu para a Cordoaria Nacional «tem mais de meio século e foi sempre rejeitada», até pelo «respeito devido à própria Cordoaria, que é monumento nacional». «Por isso, à partida, o melhor seria procurar outro local ou então continuar com os planos de ampliação do Museu nos Jerónimos. Mas se se quisesse mesmo optar pela Cordoaria Nacional, então a primeira coisa a fazer teria sido pedir o tal estudo ao LNEC. Depois disso se veria se: a) era ou não viável colocar lá o Museu, em condições mínimas de segurança, b) sendo possível, quanto é que isso custaria», adianta, referindo que a melhor opção seria a de construir um edifício de raiz. «Penso mesmo que seria mais barato do que a opção pela Cordoaria Nacional», sustenta.
E quanto vai custar aos cofres do Estado esta potencial transferência de instalações? Segundo os responsáveis do MC, adianta Raposo, cerca de 15 milhões de euros. «Sem quaisquer estudos de suporte, trata-se apenas de um palpite. Ora eu, baseado nos custos médios de recuperação de monumentos antigos para as adaptar a museus e tendo em conta os metros quadrados totais em questão, apontaria para cerca de 25 a 30 milhões de euros. Isto sem contar, é claro, com os custos de eventuais reforços estruturais, contenção periférica anti-cheias, etc. que podem ser outro tanto», prossegue.
O MNA constitui um dos nove museus nacionais portugueses, um dos mais antigos (fundado em 1893) e é o segundo mais visitado da rede do MC. Além disso, é o Museu que a Monarquia Liberal e a Primeira República entenderam ser o ideal para colocar nos espaços novos do Mosteiro dos Jerónimos,um «Museu do Homem Português», para mostrar as raízes profundas do ser português.
Por tudo isto, Luís Raposo conclui: «será que os portugueses já se aperceberam plenamente de como as actuais orientações representam um regresso à ideologia do Estado Novo? Duvido, porque quando disso tomarem consciência não pode deixar de haver um clamor nacional sobre o assunto. Neste contexto, o MNA quase que aparece como um estorvo, por estar à hora errada no local errado».
O Café Portugal contactou o ministério da Cultura mas até ao momento não obtivemos qualquer resposta sobre este assunto.

CAFÉ PORTUGAL
http://www.cafeportugal.net/pages/noticias_artigo.aspx?id=2030

Plan the Planning (1)

Quando pensamos num museu é inevitável associar as colecções (conteúdo) ao edifício que as acolhe (contentor), seja ele construído de raiz, ou adaptado a essa função.
Instalado nos Jerónimos desde 1900, o Museu Nacional de Arqueologia (MNA) está associado de forma bastante forte ao actual edifício.
Aos olhos do jovem estudante, como eu era quando nele entrei pela primeira vez, pareceu uma interessante coincidência termos, num mesmo espaço, a possibilidade de encontrar os túmulos de figuras gradas da nossa história e cultura, testemunhos físicos da ocupação do território nacional e por último uma evocação da expansão Portuguesa.
Com o passar dos anos e um melhor conhecimento das funções que cabem a um museu, fui reflectindo algumas vezes sobre, se as vantagens de um contentor tão carregado de simbolismo, se sobrepunham aos inconvenientes que, ia percebendo, também existiam.
Ter um edifício novo é o sonho de qualquer profissional de museus. O desafio de estabelecer um programa capaz de ajustar o Museu às necessidades dos seus utilizadores e colecções é, talvez, o trabalho mais interessante a que um profissional de museus pode aspirar.
No entanto, esse desafio não é isento de riscos, dúvidas e questões.
Quando se começou a ventilar a possibilidade de mudança do MNA para a Cordoaria Nacional, confesso que fiquei surpreso com essa opção. Se os Jerónimos apresentam um conjunto de constrangimentos, que resultam de ser um edifício adaptado à função de Museu, creio que na Cordoaria o cenário será idêntico, pelo que me pareceu que o MNA teria pouco a ganhar com a troca.
Deixando de lado a questão do edifício, por instantes, tenho lido na Web dezenas de comentários que atribuem ao Director do MNA uma resistência à mudança devido à certeza de que vai perder visitantes. Ainda não vi ninguém questionar esta ideia, mas será mesmo assim?
Bem vistas as coisas, a Cordoaria distará poucas centenas metros do novo edifício do Museu Nacional dos Coches e do Centro de Congressos de Lisboa, pelo que assumir uma perda automática de visitantes, me parece abusivo. Já se falássemos de uma localização claramente periférica dos circuitos turísticos, veja-se o exemplo do Museu Nacional de Etnologia, esse raciocínio seria mais aceitável, ainda que carecesse de confirmação.
Outra linha de comentadores questiona a importância dos estudos geotécnicos e geofísicos, argumentando que entre a Cordoaria e Jerónimos não há diferenças a este nível. Estarão certos disso? Até à data não vi dados concretos que o demonstrem e, a minha experiência pessoal, faz-me ser cauteloso a esse respeito. Recordo sempre, com um nó na garganta, o Inverno de 2002, altura em que prestava serviço no Museu Militar e vi o Pátio dos Canhões transformar-se num espelho de água e as caves ficarem inundadas com cerca de 70cm de água, após 15 minutos de chuva ao fim da tarde… Só por um acaso os danos não foram muito graves.
Antes que se pense que comparo o incomparável, devo esclarecer que por baixo do Museu Militar corre uma ribeira encanada, que o largo fronteiro ao Museu era, ainda no século XIX, uma pequena baía, utilizada para abastecer o Arsenal do Exército por via fluvial, que as condutas de águas pluviais se encontram parcialmente obstruídas e que a proximidade do rio torna os níveis freáticos susceptíveis de serem influenciados pelas marés do Tejo. A conjugação destes factores com uma chuvada forte teve o resultado atrás referido. É certo que a minha análise é apenas empírica e gostaria de a ver desmentida cientificamente, o que não foi feito até agora.
Como aspecto justificativo para a mudança tem sido apontada a falta de espaço das instalações do MNA, que impede uma adequada instalação das reservas e o desenvolvimento de um programa de actividades mais vasto.
Este argumento favorece a mudança, mas ainda não foi demonstrado que o edifício da Cordoaria represente um acréscimo significativo de área útil para o MNA, pelo menos face ao projecto que previa a expansão do Museu nos Jerónimos. De acordo com os dados disponíveis, esse projecto previa um aumento da área do MNA para 10.000m2, enquanto a instalação na Cordoaria permitirá atingir 14.000m2. Pode parecer um preciosismo da minha parte, mas gostaria de relembrar que o Museu Nacional de Etnologia já necessitou de ver a sua área de reservas ampliada e que o grupo de trabalho constituído em 1980 previa, no caso de construção de um edifício de raiz para o MNA, a necessidade de 40.000m2. Poderá a Cordoaria suportar uma ampliação que mais cedo ou mais tarde será necessária? Em alternativa, vamos ter um MNA de colecções fechadas?
Para lá das áreas, importa ver como é que vão ser utilizadas, isto é, qual o programa expositivo que se pretende implementar e que serviços ali vão funcionar. Estes são aspectos fundamentais para o planeamento de um museu, para a sua mudança de instalações, ou reinstalação no mesmo espaço.
Até agora, apesar de se avançar com uma data para a reabertura do MNA na Cordoaria, ainda não se fez nenhuma alusão àqueles aspectos. Falou-se na possibilidade de ali instalar parte dos serviços de arqueologia, actualmente na tutela do IGESPAR, mas sem haver uma definição clara do que isso significa. É apenas uma partilha de espaço? É o retomar do modelo de instalação de serviços semi-autónomos do Museu estabelecido na década de 80? Vamos voltar a ter uma exposição de longa duração ou, manter-se-á o ciclo de grandes exposições temáticas iniciado com a Lisboa Subterrânea em 1994?
Sem planeamento, parece-me difícil conceber um projecto de arquitectura que responda às necessidades de um museu. Neste caso concreto, ao contrário do novo edifício do Museu Nacional dos Coches, ainda não se ouviu falar em nenhum arquitecto e respectiva equipa a conceber o projecto global e os projectos de especialidades necessários para a instalação do MNA no edifício da Cordoaria. Como o projecto e a intervenção implicam tempo de execução e prazos administrativos, será a meta de 2012 exequível? E caso não seja, como está planeada a logística necessária a esta mudança?
Já foi dito que o MNA não iria ser encerrado, mas confesso que me parece um exercício algo complicado manter o Museu aberto, com uma programação coerente, quando se está, em simultâneo, a fazer uma mudança e os recursos disponíveis são escassos. Corremos o risco de, tal como na década de 70, voltar a ter o MNA fechado por vários anos devido a uma derrapagem nos prazos de execução e/ou nos custos?
Por último, mas não menos importante, no contexto actual: há meios financeiros para fazer esta mudança nas condições ideais e no prazo estipulado, quando interna e externamente várias vozes reclamam a contenção dos custos do Estado? Li que o Instituto dos Museus e Conservação estimava os custos com a instalação do MNA na Cordoaria em 15 milhões de euros. Tendo em conta que, publicamente, ainda não se conhece o programa e o projecto de arquitectura, não podemos ter uma noção concreta da sua exactidão, pelo que me absterei de comentar esse valor. 
Não posso no entanto, deixar de expressar uma preocupação final. Depois de consultar o Orçamento de Estado, verifiquei que nas rubricas de investimento do Ministério da Cultura, não existia nenhuma que correspondesse a esta intervenção. Num contexto de crise económica e financeira, em que os administradores decretam o fim do crédito fácil, parece-me difícil contar apenas com mecenas e patrocínios. Poderei estar enganado, ficaria mais tranquilo se mo demonstrassem.
Este conjunto de dúvidas pode ser facilmente respondido pela tutela. Se o fizer creio que profissionais da arqueologia e dos museus poderão contribuir positivamente para se instalar o Museu Nacional de Arqueologia com a qualidade e dignidade que merece.
João Tiago Tavares
Oliveira de Azeméis, 02 de Maio de 2010

(1) Título de um subcapítulo do The Manual of Museum Planning, dirigido por Gail e Barry Lord.

domingo, 2 de maio de 2010

O Projecto de Resolução do Bloco de Esquerda sobre os Museus do Eixo Ajuda/Belém discutido no dia 5 de Maio de 2010 na Comissão Parlamentar de Cultura

Foi já agendada a discussão parlamentar, em Comissão, do Projecto de Resolução do Bloco de Esquerda intitulado “RECOMENDA AO GOVERNO A SUSPENSÃO DE TODAS AS ACÇÕES RELATIVAS À TRANSFERÊNCIA DE MUSEUS E À CRIAÇÃO DE NOVOS MUSEUS NO EIXO AJUDA/BELÉM, ATÉ À ELABORAÇÃO DE UM PLANO ESTRATÉGICO PARA A RECONFIGURAÇÃO DO SEU CONJUNTO” e que pode ser lido na íntegra neste endereço:
http://www.esquerda.net/images/stories/politica/pr_museus.pdf
Recordamos que também o Grupo Parlamentar do Partido Comunista Português anunciou que iria voltar a agendar o Projecto de Resolução que tinha apresentado no final da última legislatura, há um ano, e que vai genericamente no mesmo sentido.
O Centro Democrático e Social (CDS) e o Partido Social-Democrata (PSD) informaram o GAMNA que estudam também a possibilidade de apresentação de iniciativas legislativas próprias, sem prejuízo da convergência que possam ter com as iniciativas já tomadas pela esquerda parlamentar.
Esperam-se, pois novidades do lado da Assembleia da República, nas próximas semanas.