O FUTURO DO MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA EXIGE PONDERAÇÃO E RESPEITO


Com a publicação da saudação do Dr. Luís Raposo aos Amigos do MNA, do artigo do jornal Publico e da notícia da Antena 1, todos abaixo transcritos, chega ao fim a missão deste blogue independente,
feito por alguns amigos do MNA.

A luta travada nos últimos anos em defesa do MNA, impedindo a sua transferência para a Fábrica da Cordoaria Nacional, foi coroada de êxito.

Ao Dr. Luís Raposo desejamos as maiores venturas na continuação da sua carreira profissional.

Se um dia o MNA voltar a estar em perigo, regressaremos,

porque por agora apenas hibernamos.



domingo, 9 de maio de 2010

A Jornada de Solidariedade - Vigília pela Memória de 8 de Maio de 2010 foi um assinalável êxito… e fará história (5)

Um depoimento da jornalista NAIR ALEXANDRA.

PAREDES VAZIAS


Vi hoje e não quis acreditar. A chamada «Torre Oca» do Museu Nacional de Arqueologia (MNA) está vazia. Paredes nuas, apenas em baixo, painéis pretos, com palavras de ordem a lembrarem a coisa mais lógica e básica de qualquer sociedade civilizada, mas que os responsáveis deste País parecem não entender: o património é um bem de todos, faz parte da memória colectiva de um país. E o MNA não é um sítio qualquer. É uma instituição centenária, fundada por alguém que quis fazer dele uma espécie de «Museu do Homem», alguém como Leite de Vasconcelos, a quem a arqueologia portuguesa tanto deve, a quem a cultura portuguesa tanto deve. O Museu é «só» a «Casa da Arqueologia» em Portugal, com um espólio riquíssimo, que guarda a passagem humana de tantos que viveram no território que é hoje português (e não só) e que continuam a viver em nós através de lucernas, ampolas de vidro, colares, estátuas, mosaicos e outras peças que as mãos desses homens e mulheres produziram. O Museu guarda múmias egípcias, escaravelhos da velha civilização do Nilo, estátuas romanas, peças incontáveis, de um valor dificilmente calculável, adquiridas pelo próprio Leite de Vasconcelos e pelos seus sucessores ao longo da sua história já tão cheia.
E no entanto, quando se resolveu fazer um novo museu de raiz para os coches, ali ao pé, de uma penada decidiu-se que a «arqueologia» - dito assim, de uma maneira vaga – iria ocupar o espaço da Cordoaria Nacional. E por «arqueologia» iria de arrasto o MNA, como se este fosse uma qualquer secção onde se engavetam fragmentos empoeirados de uma escavação arqueológica. E a decisão manteve pé firme, contra relatórios que desaconselham a transferência do Museu para uma unidade fabril setecentista única na Europa, mas entretanto com fragilidades porque sob as suas paredes passa o Tejo, porque os solos ali são particularmente sensíveis a tremores de terra… E muito provavelmente (embora o ministério da Cultura não tenha, até agora, apresentado contas) porque a transferência do MNA para a Cordoaria poderá custar muito mais do que um museu de raiz. E entendamo-nos aqui. Ninguém está «amarrado» à ideia da localização eterna do MNA na área reconstruída do século XIX que ele ocupa. Simplesmente quando se decide transferir um museu é do mais elementar bom senso fazer estudos, contas, cálculos, ouvir pareceres, decidir tomando em atenção as opiniões de quem sabe, perante os dados na mesa.
Mas não. O bom senso não interessa o que quer que seja para aqui. E como a falta dele, e, pelos vistos, a ignorância, costumam andar de mãos dadas com a arrogância, vá de esvaziar um dos espaços expositivos mais importantes do Museu sem demoras. Já e agora, que o ministério da Cultura tem pressa. Sem consideração pela instituição e por quem ali trabalha. E que merecia mais respeito. A própria memória de Leite de Vasconcelos merecia mais respeito.
Eu sabia o que andava a passar-se. Tenho acompanhado o que muito nesta casa se tem feito, às vezes lutando contra ventos e marés, contra as dificuldades que minam a vida dos museus portugueses. Mas quando hoje, dia que o Grupo de Amigos do MNA marcou para uma jornada de defesa do Museu, eu entrei na Torre Oca, não queria acreditar. Durante anos vi ali mosaicos bizantinos, vitrinas exibindo peças maravilhosas, de países diferentes, maquetas de embarcações egípcias, máscaras romanas, marfins delicadamente trabalhados, projecções de filmes como «Ben-Hur», a mostrarem certos olhares contemporâneos sobre o passado.
Hoje as paredes daquela sala estavam nuas. E eu continuo a não querer acreditar. Porque tanta falta de cuidado parece irreal. Parece impossível.
Nair Alexandra

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