O FUTURO DO MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA EXIGE PONDERAÇÃO E RESPEITO


Com a publicação da saudação do Dr. Luís Raposo aos Amigos do MNA, do artigo do jornal Publico e da notícia da Antena 1, todos abaixo transcritos, chega ao fim a missão deste blogue independente,
feito por alguns amigos do MNA.

A luta travada nos últimos anos em defesa do MNA, impedindo a sua transferência para a Fábrica da Cordoaria Nacional, foi coroada de êxito.

Ao Dr. Luís Raposo desejamos as maiores venturas na continuação da sua carreira profissional.

Se um dia o MNA voltar a estar em perigo, regressaremos,

porque por agora apenas hibernamos.



terça-feira, 4 de maio de 2010

Museu de Arqueologia - «Passagem para a Cordoaria Nacional é um erro»

O director do Museu Nacional de Arqueologia fala dos problemas inerentes à passagem do património do espaço que dirige para a Cordoaria Nacional. Entre eles, Luís Raposo salienta os riscos de segurança geotécnica e antecipa os milhões que esta operação pode custar aos cofres do Estado.

Ana Clara
terça-feira, 4 de Maio de 2010

Há um ano, o anterior Governo de José Sócrates colocou a hipótese de transferir o Museu Nacional de Arqueologia (MNA) do Mosteiro dos Jerónimos para a Cordoaria Nacional. A intenção governamental, desde logo, suscitou grande polémica, com críticas sobretudo à segurança geotécnica do local e do próprio edificado da Cordoaria.
O Café Portugal foi perceber onde e porquê reside esta controvérsia, sobretudo por parte da Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional dos Museus que, em defesa do Museu, tem em marcha um abaixo-assinado contra a eventual mudança de local do espaço. 
Luís Raposo, presidente do MNA e do ICOM- Portugal, a maior organização internacional de museus e profissionais de museus dedicada à preservação e divulgação do património natural e cultural mundial, explica o que está em causa.
«São basicamente duas as preocupações que tenho quanto a esta matéria. Primeiro, garantir que na Cordoaria Nacional existem condições para acolher o Museu. Segundo, garantir que o Museu mantenha totalmente a sua operacionalidade nos Jerónimos, até ao momento em que possa passar, em boa ordem, para a Cordoaria Nacional», começa por explicar.
Refere que a Cordoaria Nacional apresenta riscos de segurança geotécnica que «não são negligenciáveis». E argumenta: «de um lado da Cordoaria está o novo Museu dos Coches e do outro está o novo hotel a construir nos terrenos da ex-FIL. Em ambos os casos foi decido não colocar nada de importante abaixo da quota de cinco metros acima do rio Tejo. Porquê? Porque é essa a quota de segurança de inundações e tsunami. Como e que se pode dizer que no meio, na Cordoaria Nacional, os tesouros nacionais do Museu estarão bem apenas um metro acima do Tejo?».
Luís Raposo afirma que a isto acrescem os riscos sísmicos: «é que a Cordoaria está sobre o estuário do rio Seco e tal como no Terreiro do Paço existe o perigo de os sedimentos por baixo poderem escorregar e não suportar cargas em caso de sismo, afundando-se o que estiver por cima». «Ainda existem mais perigos, mas só estes já chegavam para que tudo tivesse de ser analisado com grande seriedade», alerta.

Parecer do LNEC pedido pelo MC
Questionado sobre o parecer pedido pela nova ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) acerca das referidas condições geotécnicas, o presidente do MNA diz: «falamos de um parecer dado num mês por um antigo funcionário do LNEC, certamente competente mas que não pôde senão basear-se em estudos generalistas sobre a geologia de Lisboa».
E acrescenta que «o único estudo específico sobre o rio Seco usado nesse parecer conclui também pelo perigo de inundação e recomenda a adopção de medidas de desvio do caudal do rio Seco e de impedimento de entrada das águas do Tejo, medidas que nunca foram implementadas». «Até mesmo usando o parecer pedido pelo Ministério da Cultura (MC) teria de concluir-se que o Museu não pode passar para a Cordoaria sem que estas medidas estejam efectivadas», reforça.
Luís Raposo lembra que a ideia de transferir o Museu para a Cordoaria Nacional «tem mais de meio século e foi sempre rejeitada», até pelo «respeito devido à própria Cordoaria, que é monumento nacional». «Por isso, à partida, o melhor seria procurar outro local ou então continuar com os planos de ampliação do Museu nos Jerónimos. Mas se se quisesse mesmo optar pela Cordoaria Nacional, então a primeira coisa a fazer teria sido pedir o tal estudo ao LNEC. Depois disso se veria se: a) era ou não viável colocar lá o Museu, em condições mínimas de segurança, b) sendo possível, quanto é que isso custaria», adianta, referindo que a melhor opção seria a de construir um edifício de raiz. «Penso mesmo que seria mais barato do que a opção pela Cordoaria Nacional», sustenta.
E quanto vai custar aos cofres do Estado esta potencial transferência de instalações? Segundo os responsáveis do MC, adianta Raposo, cerca de 15 milhões de euros. «Sem quaisquer estudos de suporte, trata-se apenas de um palpite. Ora eu, baseado nos custos médios de recuperação de monumentos antigos para as adaptar a museus e tendo em conta os metros quadrados totais em questão, apontaria para cerca de 25 a 30 milhões de euros. Isto sem contar, é claro, com os custos de eventuais reforços estruturais, contenção periférica anti-cheias, etc. que podem ser outro tanto», prossegue.
O MNA constitui um dos nove museus nacionais portugueses, um dos mais antigos (fundado em 1893) e é o segundo mais visitado da rede do MC. Além disso, é o Museu que a Monarquia Liberal e a Primeira República entenderam ser o ideal para colocar nos espaços novos do Mosteiro dos Jerónimos,um «Museu do Homem Português», para mostrar as raízes profundas do ser português.
Por tudo isto, Luís Raposo conclui: «será que os portugueses já se aperceberam plenamente de como as actuais orientações representam um regresso à ideologia do Estado Novo? Duvido, porque quando disso tomarem consciência não pode deixar de haver um clamor nacional sobre o assunto. Neste contexto, o MNA quase que aparece como um estorvo, por estar à hora errada no local errado».
O Café Portugal contactou o ministério da Cultura mas até ao momento não obtivemos qualquer resposta sobre este assunto.

CAFÉ PORTUGAL
http://www.cafeportugal.net/pages/noticias_artigo.aspx?id=2030

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