O FUTURO DO MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA EXIGE PONDERAÇÃO E RESPEITO


Com a publicação da saudação do Dr. Luís Raposo aos Amigos do MNA, do artigo do jornal Publico e da notícia da Antena 1, todos abaixo transcritos, chega ao fim a missão deste blogue independente,
feito por alguns amigos do MNA.

A luta travada nos últimos anos em defesa do MNA, impedindo a sua transferência para a Fábrica da Cordoaria Nacional, foi coroada de êxito.

Ao Dr. Luís Raposo desejamos as maiores venturas na continuação da sua carreira profissional.

Se um dia o MNA voltar a estar em perigo, regressaremos,

porque por agora apenas hibernamos.



terça-feira, 4 de maio de 2010

Plan the Planning (1)

Quando pensamos num museu é inevitável associar as colecções (conteúdo) ao edifício que as acolhe (contentor), seja ele construído de raiz, ou adaptado a essa função.
Instalado nos Jerónimos desde 1900, o Museu Nacional de Arqueologia (MNA) está associado de forma bastante forte ao actual edifício.
Aos olhos do jovem estudante, como eu era quando nele entrei pela primeira vez, pareceu uma interessante coincidência termos, num mesmo espaço, a possibilidade de encontrar os túmulos de figuras gradas da nossa história e cultura, testemunhos físicos da ocupação do território nacional e por último uma evocação da expansão Portuguesa.
Com o passar dos anos e um melhor conhecimento das funções que cabem a um museu, fui reflectindo algumas vezes sobre, se as vantagens de um contentor tão carregado de simbolismo, se sobrepunham aos inconvenientes que, ia percebendo, também existiam.
Ter um edifício novo é o sonho de qualquer profissional de museus. O desafio de estabelecer um programa capaz de ajustar o Museu às necessidades dos seus utilizadores e colecções é, talvez, o trabalho mais interessante a que um profissional de museus pode aspirar.
No entanto, esse desafio não é isento de riscos, dúvidas e questões.
Quando se começou a ventilar a possibilidade de mudança do MNA para a Cordoaria Nacional, confesso que fiquei surpreso com essa opção. Se os Jerónimos apresentam um conjunto de constrangimentos, que resultam de ser um edifício adaptado à função de Museu, creio que na Cordoaria o cenário será idêntico, pelo que me pareceu que o MNA teria pouco a ganhar com a troca.
Deixando de lado a questão do edifício, por instantes, tenho lido na Web dezenas de comentários que atribuem ao Director do MNA uma resistência à mudança devido à certeza de que vai perder visitantes. Ainda não vi ninguém questionar esta ideia, mas será mesmo assim?
Bem vistas as coisas, a Cordoaria distará poucas centenas metros do novo edifício do Museu Nacional dos Coches e do Centro de Congressos de Lisboa, pelo que assumir uma perda automática de visitantes, me parece abusivo. Já se falássemos de uma localização claramente periférica dos circuitos turísticos, veja-se o exemplo do Museu Nacional de Etnologia, esse raciocínio seria mais aceitável, ainda que carecesse de confirmação.
Outra linha de comentadores questiona a importância dos estudos geotécnicos e geofísicos, argumentando que entre a Cordoaria e Jerónimos não há diferenças a este nível. Estarão certos disso? Até à data não vi dados concretos que o demonstrem e, a minha experiência pessoal, faz-me ser cauteloso a esse respeito. Recordo sempre, com um nó na garganta, o Inverno de 2002, altura em que prestava serviço no Museu Militar e vi o Pátio dos Canhões transformar-se num espelho de água e as caves ficarem inundadas com cerca de 70cm de água, após 15 minutos de chuva ao fim da tarde… Só por um acaso os danos não foram muito graves.
Antes que se pense que comparo o incomparável, devo esclarecer que por baixo do Museu Militar corre uma ribeira encanada, que o largo fronteiro ao Museu era, ainda no século XIX, uma pequena baía, utilizada para abastecer o Arsenal do Exército por via fluvial, que as condutas de águas pluviais se encontram parcialmente obstruídas e que a proximidade do rio torna os níveis freáticos susceptíveis de serem influenciados pelas marés do Tejo. A conjugação destes factores com uma chuvada forte teve o resultado atrás referido. É certo que a minha análise é apenas empírica e gostaria de a ver desmentida cientificamente, o que não foi feito até agora.
Como aspecto justificativo para a mudança tem sido apontada a falta de espaço das instalações do MNA, que impede uma adequada instalação das reservas e o desenvolvimento de um programa de actividades mais vasto.
Este argumento favorece a mudança, mas ainda não foi demonstrado que o edifício da Cordoaria represente um acréscimo significativo de área útil para o MNA, pelo menos face ao projecto que previa a expansão do Museu nos Jerónimos. De acordo com os dados disponíveis, esse projecto previa um aumento da área do MNA para 10.000m2, enquanto a instalação na Cordoaria permitirá atingir 14.000m2. Pode parecer um preciosismo da minha parte, mas gostaria de relembrar que o Museu Nacional de Etnologia já necessitou de ver a sua área de reservas ampliada e que o grupo de trabalho constituído em 1980 previa, no caso de construção de um edifício de raiz para o MNA, a necessidade de 40.000m2. Poderá a Cordoaria suportar uma ampliação que mais cedo ou mais tarde será necessária? Em alternativa, vamos ter um MNA de colecções fechadas?
Para lá das áreas, importa ver como é que vão ser utilizadas, isto é, qual o programa expositivo que se pretende implementar e que serviços ali vão funcionar. Estes são aspectos fundamentais para o planeamento de um museu, para a sua mudança de instalações, ou reinstalação no mesmo espaço.
Até agora, apesar de se avançar com uma data para a reabertura do MNA na Cordoaria, ainda não se fez nenhuma alusão àqueles aspectos. Falou-se na possibilidade de ali instalar parte dos serviços de arqueologia, actualmente na tutela do IGESPAR, mas sem haver uma definição clara do que isso significa. É apenas uma partilha de espaço? É o retomar do modelo de instalação de serviços semi-autónomos do Museu estabelecido na década de 80? Vamos voltar a ter uma exposição de longa duração ou, manter-se-á o ciclo de grandes exposições temáticas iniciado com a Lisboa Subterrânea em 1994?
Sem planeamento, parece-me difícil conceber um projecto de arquitectura que responda às necessidades de um museu. Neste caso concreto, ao contrário do novo edifício do Museu Nacional dos Coches, ainda não se ouviu falar em nenhum arquitecto e respectiva equipa a conceber o projecto global e os projectos de especialidades necessários para a instalação do MNA no edifício da Cordoaria. Como o projecto e a intervenção implicam tempo de execução e prazos administrativos, será a meta de 2012 exequível? E caso não seja, como está planeada a logística necessária a esta mudança?
Já foi dito que o MNA não iria ser encerrado, mas confesso que me parece um exercício algo complicado manter o Museu aberto, com uma programação coerente, quando se está, em simultâneo, a fazer uma mudança e os recursos disponíveis são escassos. Corremos o risco de, tal como na década de 70, voltar a ter o MNA fechado por vários anos devido a uma derrapagem nos prazos de execução e/ou nos custos?
Por último, mas não menos importante, no contexto actual: há meios financeiros para fazer esta mudança nas condições ideais e no prazo estipulado, quando interna e externamente várias vozes reclamam a contenção dos custos do Estado? Li que o Instituto dos Museus e Conservação estimava os custos com a instalação do MNA na Cordoaria em 15 milhões de euros. Tendo em conta que, publicamente, ainda não se conhece o programa e o projecto de arquitectura, não podemos ter uma noção concreta da sua exactidão, pelo que me absterei de comentar esse valor. 
Não posso no entanto, deixar de expressar uma preocupação final. Depois de consultar o Orçamento de Estado, verifiquei que nas rubricas de investimento do Ministério da Cultura, não existia nenhuma que correspondesse a esta intervenção. Num contexto de crise económica e financeira, em que os administradores decretam o fim do crédito fácil, parece-me difícil contar apenas com mecenas e patrocínios. Poderei estar enganado, ficaria mais tranquilo se mo demonstrassem.
Este conjunto de dúvidas pode ser facilmente respondido pela tutela. Se o fizer creio que profissionais da arqueologia e dos museus poderão contribuir positivamente para se instalar o Museu Nacional de Arqueologia com a qualidade e dignidade que merece.
João Tiago Tavares
Oliveira de Azeméis, 02 de Maio de 2010

(1) Título de um subcapítulo do The Manual of Museum Planning, dirigido por Gail e Barry Lord.

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